• institutoleaoxiii@gmail.com

Arquivo da tag #espiritualidade

Coronavírus e lepra espiritual

Na Roma do século VI, o Papa São Gregório Magno (540-604), Doutor da Igreja e eleito Sumo Pontífice por aclamação de clero, povo e senado, foi escolhido pela Providência para enfrentar uma terrível praga que acometeu o povo italiano.

Os monges beneditinos lançavam-se à evangelização do mundo. A Itália, sabemos, enfrentava, além de graves problemas sociais – inundação do Tibre, fome, celeiros devastados -, a ameaça severíssima dos lombardos e suas entranhadas lutas contra os bizantinos (Gregório chegou a libertar a Cidade Eterna dos assédios de Ariulfo e Agilulfo), quando sobreveio a luesinguinaria, epidemia alastrada por vasto território que, chegando a Roma, vitimou inclusive o antecessor de Gregório, o Papa Pelágio II, em 590.

Certamente inspirado em Gallus, bispo de Clermont (Gália), que em 543 liderou o povo em súplicas a fim de que Deus lhes afastasse a peste (muito mais avassaladora que o atual Coronavírus, diga-se), bem como no Rei Davi, face àquele cenário desolador, o infatigável S. Gregório não esmoreceu: ofereceu e pediu preces, jejuns, Sacramentos e sete litanias que, oriundas de sete bairros de Roma, encontrar-se-iam em Santa Maria Maior, implorando o perdão dos pecados e granjeando, assim, a cessação da praga. Por fim, chegando à ponte que dava no túmulo de Adriano, o Santo ergueu os olhos e viu, na cúpula do Castellum Crescentii, um anjo embainhando a espada. Era o fim daquela calamidade.

Séculos mais tarde, em 1576, outra terrível peste colheu Milão e espalhou uma multidão de doentes. Após dois meses dos primeiros casos, 6000 pessoas haviam morrido somente na cidade. Desponta então mais um herói da fé: sobrinho de Pio IV (1559-1565), o bispo Carlos Borromeu (1538-1584) permaneceu com seu clero na cidade (conquanto não desprezasse justas medidas profiláticas, pois, segundo se diz, manteve preservados alguns sacerdotes), indo às ruas e socorrendo os desvalidos, seja despendendo o que pôde materialmente, seja (sobretudo) prodigalizando os tesouros espirituais da Providência. Celebraram-se três procissões para alcançar de Deus a misericórdia, comunicadas pelas indulgências obtidas por ele do Papa Gregório XIII, nas quais o bispo, encapuzado, peregrinou descalço e de corda ao pescoço. Mais de uma centena de seus sacerdotes contraiu a praga no zelo pelos enfermos.

Dentre outras obras, Borromeu criou refúgios para prostitutas arrependidas e jovens sob risco de lançar-se à prostituição (lares Santa Maria Madalena e Santa Catarina), orfanatos e institutos para meninos de rua, albergues, hospitais, refeitórios e uma como que congregação para as viúvas. O amor empenhado pelo arcebispo de Milão foi descrito em detalhes por Carlo Bascapè (1550-1815), seu primeiro biógrafo.

Tal caridade provinha não de simples sentimento humanitário, de pura filantropia ou humanismo, mas das contemplações a que se abandonava diariamente e de uma firme devoção aos anjos de Deus. Para suplantar a praga, Borromeu (como Gregório) confiou no poder das súplicas públicas e privadas dirigidas ao Senhor. Conforme explica Roberto de Mattei, o santo estava convencido: aquele era um “flagelo enviado do Céu” em razão dos pecados do povo, e São Carlos desatou reprimendas às autoridades civis por estas desprezarem os recursos espirituais e valorizarem os meios meramente humanos: “Não haviam proibido as reuniões piedosas e procissões durante o tempo de Jubileu? Ele estava convencido de que essas eram as causas da punição” (Chanoine Charles Sylvain, Histoire de Saint Charles Borromée, Desclée de Brouwer, Lille 1884, vol. II, p. 135).           
            Os Evangelhos nos mostram S. Pedro tentando, com seu Mestre, caminhar sobre as águas, mas soçobrando por haver “desviado o olhar” de Cristo, ter olhado para o vento. Seu sucessor, S. Gregório, durante a epidemia não incidiu, digamos, no mesmo: fitou a Eternidade, pois, até durante a praga, sua preocupação era sobretudo com as almas, com o triunfo da fé católica sobre a heresia e o paganismo; como as mortes eram demasiado repentinas (durante uma procissão oitenta pessoas caíram fulminadas), enfatizou a necessidade da conversão (Lester K. Little, Plague and the End of Antiquity: The Pandemic of 541-750, New York: Cambridge U. Press, p. 11); o arcebispo milanês, da mesma forma, preocupou-se sobremodo com a “lepra espiritual” que assolara o rebanho.     

Ambos os santos não se apressaram, como tristemente certos prelados hoje o fazem por ocasião do Covid-19, a descartar a hipótese de que o Senhor pode desse modo ensinar, com Sua mão poderosa, aos quais deu a vida – sem prejuízo das razões naturais dos fenômenos: não é Deus também o Criador e mantenedor da natureza? Qual o irracionalismo na ideia de que Deus se serve de causas segundas e naturais no cumprimento de Sua prodigiosa Vontade? Lembra De Mattei que Deus, como um pai,  castiga – até por subtração, diz São Bernardino de Siena. Tenhamos claro: se até nós amorosamente castigamos os nossos filhos, no intento de que não se percam, por que não poderia Deus assim fazer aos seus pelo motivo superior da salvação das almas? Sim, Ele corrige. E quem o diz? Os demais santos e Doutores: Santo Tomás (Sum. Theo.,II-II, q. 108), São Bernardo (Serm. 42, in Cant), Santo Afonso de Ligório (“É desgraçado aquele que não é castigado por Deus neste mundo”, Sermão sobre a utilidade das tribulações, 10), o Apóstolo (“A Domino corripimur, ut non cum hoc mundo damnemur”, I Cor. XI, 32), etc. Quem enim diigit Dominus castigat, flagellat autem omnem filium quem recipit (Hebr. XII, 6). O Senhor castiga a quem ama, e a distinção entre simples vingança e castigo é a pureza de intenção daquele que pune. É grave o desconhecimento dessa verdade neste instante, porque, se a ignorarmos, perderemos oportunidade ímpar de conversão, desprezando a voz do Pastor a gritar nos acontecimentos.

Grande parte da hierarquia atual, varada de modernismo, no entanto, capitulou. A adaptação às categorias filosófico-teológicas modernas tornou-se regra nos seminários. O temor da possível ridicularização (sobre a qual pronunciou-se Bento XVI durante a vigília pela beatificação do Cardeal Newman, em 2010), mormente em tempos de redes sociais, pela atribuição da peste global aos desígnios da Providência, constitui mais um episódio da mordaça autoimposta da newspeak relativista: se não podemos dizer o que pensamos, falar de fé sem nos curvar ao linguajar materialista de um mundo ímpio, logo deixaremos de pensar no que não podemos dizer, abdicando da pregação da verdade para, em seguida, abandonarmo-nos ao veneno do indiferentismo.         

Em geral, tais prelados são zelosos em obedecer à risca aos ditames das instituições civis e dos organismos governamentais quando estes trabalham contra a fé. Mostram-se os mais implacáveis, chama atenção Mauro Faverzini em Corrispondenza Romana, contra os fiéis “rigoristas e fariseus” que lhes solicitam a água viva da Sã Doutrina. Sedizentes católicos, esses liberais vivem de aguardar “lacunas” nas recomendações da Igreja e de afetar algumas palavras de fé para a manutenção das aparências.

Renunciando na prática ao seu posto de Mãe, Mestra e custódia do direito dos povos (Pio XI, Ubi Arcano Dei, 1922), a Igreja assim entendida não tem se colocado senão como mais uma “manifestação cultural” entre as demais, impregnando-se mais e mais do caldo pós-moderno dos “valores” (abstratíssimos, fantasmagóricos) de civilidade e fraternidade universais da sociedade laica. Mas se a paz não se funda em Cristo, vã será; assim também o amor pelos irmãos. E o mundo contemporâneo, porque devedor da modernidade, baseia-se em contrafações das virtudes cristãs, simulacros mal-acabados (os ditos valores)e sem fundamento destas. Conforme recentemente denunciou Mons. Giampaolo Crepaldi, arcebispo de Trieste, a crise do Coronavírus tem revelado, por exemplo, a artificialidade da União Europeia. Face à pandemia, cada estado se fechou em si mesmo e a ausência de coesão moral não foi compensada pela coesão institucional e política. É a misericórdia do mundo?

Sem arriscar um juízo acerca da suspensão temporária das missas públicas por parte do episcopado (afigura-se difícil um exame prudencial de tudo neste momento, pois há, a um só tempo, necessidade de isolamento e de continuidade da atividade produtiva dos países), é preocupante a legitimação sem peias das ações de autoridades estatais a impor pesadas sanções às igrejas em caso de descumprimento das mesmas suspensões, porquanto não se trata do poder de controle provocado pelos eclesiásticos – ou seja,o daquela autoridade que legitimamente age em resposta às exigências da Igreja -, mas do contrário. O estado não deve julgar a Igreja, mas ser julgado por ela; e não se pode descartar o possível alvorecer, com o Coronavírus, de uma ditadura sanitária mundial, lembra Mons. Athanasius Schneider. Se grande parte da hierarquia católica estivesse insubmissa ao privatismo liberal da religião tão em voga, tampouco esperaria benevolência da Cidade dos Homens, como se esta fosse reconhecer aos cidadãos em tempos de coerção legal (?) não apenas o direito de buscar bens essenciais à saúde (ida às farmácias e mercados), e sim também o direito aos bens essenciais à existência (os Sacramentos, a assistência espiritual).

Embora ainda pouco saibamos de certeza sobre o panorama ensejado pelo Covid-19, estejamos atentos: não seria a primeira vez que César tentaria destronar a Cristo.