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Dos bons combatentes

Dos bons combatentes

Cabem os santos num mundo de inocentes? A pergunta pode soar absurda, reconheço. Um santo, conforme a ideia geral que se tem, habita uma dimensão desconhecida, intocada pela podridão cá “de baixo”, pela corrupção de cada dia tão comum a nós, meros mortais; sua pureza é vista qual a de seres míticos, inatingíveis, desde sempre talvez preservados dos verdadeiros sangue, suor e lágrimas deste mundo.

Nada mais distante da verdade. O alheamento quanto à realidade é nosso, não dos santos. Nós comuns dos homens vivemos entorpecidos do espírito, afogados na superfície das coisas, donde nos é impossível compreender que, conforme dirá Otto-Maria Carpeaux em ensaio sobre a Santa de Ávila que sempre faço questão de revisitar, são os santos que levam o mundo a sério: eles perceberam que na presente vida está em jogo nada menos que a própria Eternidade! O exercício cristão do contemptus mundi (o desprezo do mundo) supõe a feliz notícia de que a Eternidade nos espreita, e de que tudo nesta terra, enquanto nada significa em face do eterno, só pode haurir desta mesma eternidade o seu sentido, a sua razão de ser. O nietzscheanismo de cátedra está equivocado: longe de negá-la, a eternidade é o excelso modo de verdadeiramente qualificar a vida terrestre.

A santidade não está na moda porque são poucos os homens que querem ser verdadeiramente livres. Em seu Camino de perfección, Santa Teresa ensina que, se os revolucionários julgam que seu triunfo passa pelo destronamento dos abastados, o coração de pobre imuniza-se a si mesmo, sobrepujando as armas com as quais os homens o podem escravizar. Esta liberdade, afirma Teresa, é um grande senhorio sobre os bens desta vida. Com efeito, como corromper quem se orgulha da própria pobreza? Santo Agostinho, parceiro de grandeza da nossa Santa, contrasta por sua vez o impulso belicoso que pode emergir da busca pelos bens perecíveis e a natureza pacificadora da procura pelos bens espirituais. Ao passo que os bens materiais são limitados, pois não podem pertencer a muitos — nisto radicam os terríveis conflitos de interesses e, no limite, o desespero existencial, fruto de subversão da correta hierarquia de valores –, os bens espirituais devem ser compartilhados, multiplicados (recorde-se o “servo mau e preguiçoso” de S. Mateus), sob pena de desaparecerem da alma de quem os usufrui. Bonum est diffusivum sui: é próprio do bem difundir-se.

Como é óbvio, não houve jamais um santo orgulhoso. Guardiã das demais virtudes, a humildade é certa geografia da existência, o puro e simples reconhecimento de nossa posição na realidade. A santidade chama à determinação radical do amor humilde num tempo de descompromissos como o nosso — no qual, segundo Carpeaux, as teses materialistas (que de forma alguma se resumem ao apego do dinheiro) triunfaram mesmo sobre os seus inimigos mais ferozes.

Os santos são os seres desconfiadíssimos de si mesmos e, em simultâneo, absurdamente resolutos, zelosos no querer; não há melhores conhecedores da corrupção humana, porque enxergam com luz sobrenatural as mais profundas escuridões da alma. E como não desesperam?

É que a luz divina não lhes descortina apenas a miséria da condição humana como também lhes abre os olhos à Divina Misericórdia. Eles entenderam a lição do Salmista: um abismo chama outro abismo (Sl 41, 8).

O leitor certamente já ouviu sobre os santos. Com o novo ano que se inicia, não devemos nós assumir o desafio de viver grandemente, imitando-os? O desafio de um novo olhar sobre a santidade? Atentemos ao que se escreveu por aí sobre a Sagrada Escritura: ela nos revela que grandes conversões são histórias de amor à segunda vista.

Glaucio Vinicius Alves
Glaucio Vinicius Alves

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