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Das tentações de anti-humanidade

Das tentações de anti-humanidade

Em página memorável de Recordação da Casa dos Mortos, ocorre ao narrador a seguinte situação: o prisioneiro é forçado a encher com terra um recipiente, levá-lo até o outro lado do pátio, descarregá-lo, tornar a lotá-lo com a mesma terra e voltar pelo mesmo caminho, repetindo o gesto. E assim por horas a fio.
 
No terceiro ato de Calígula (a propósito, não recomendo o filme de 1979, com o Malcolm McDowell), de Camus, o imperador e um jovem dialogam. As “extravagâncias” (o assassínio do pai do jovem está entre elas) de Calígula se acham em pauta. O imperador alega em seu próprio favor que aqueles caprichos custavam mil vezes menos que a menor das guerras. O jovem Scipion replica, implacável: “Mais, du moins, ce serait raisonnable et l’essentiel est de comprendre” (“Pelo menos [a guerra] seria razoável, porque o fundamental é compreender [o motivo dela]”). A queixa de Scipion soa injusta, já que Calígula se gaba e reitera muitas vezes ao longo da peça um aferrado apego à lógica. A lógica, Calígula, há que perseverar na lógica, diz enfurecido diante do espelho.
 
Em teoria, Dante nos descobriu que o demônio é também lógico; na prática, nada se compara ao século XX: pôde-se chacinar de fome milhões de ucranianos, perseguir e dizimar outros milhares nas câmaras de gás; os campos de concentração e trabalho forçado talvez nem tivessem existido caso servissem somente ao morticínio. Na realidade, seu propósito não era simplesmente matar, mas desumanizar as vítimas, privá-las da dignidade, reduzi-las a meros espectros cambaleantes. Tudo segundo critérios industriais bem definidos.
 

Segundo parece, a Shoah foi perfeitamente criteriosa e coerente, uma vez baseada nas premissas torpes formuladas pelas cabeças doentes dos próceres do regime nazi: os judeus eram encarados como simples números, de sorte que a possibilidade de assassiná-los não implicaria remorso maior do que o que se tem ao se extirpar um verme.Decerto, tratou-se de uma ideologia da razão. A lição, todavia, não foi ainda assimilada, como mostram (todos estão cansados de saber!) o prestígio acrítico de que é cumulada a classe científica e o mesmo raciocínio desumanizador hoje consagrado em lei – que é a Planned Parenthood senão um Aktion T4 engomadinho, de verniz civilizado? No Velho Continente, de novo já se deu lugar à eutanásia (inclusive infantil) oficial. E o que tem isso a ver com Dostoiévski e Camus?

Sim, ambos brilhantemente intuíram e denunciaram as implicações naturais do espírito niilista. O primeiro delatou o enlouquecimento dos prisioneiros – incluindo os mais empedernidos niilistas – quando submetidos a tarefas sem sentido (ele notou que mesmo os mais simplórios trabalhos eram suportados pelos encarcerados, caso tivessem alguma razão de ser), metáfora da vida assaltada pela negação da transcendência. Calígula é por sua vez engolido num ciclo autofágico, ensandecido pelo poder, obcecado pelo impossível.

“Quero a lua”, diz, antecipando desse modo as aspirações dos tiranos das últimas décadas, ditadores cujo legado tristemente (e, hoje, pomposamente) persiste.

O essencial, contudo, é que os escritores lançaram luz sobre o velho problema da tensão entre amor e paixão ou sobre a facilidade com que substituímos as experiências concretas dos encontros pelas imagens ideologicamente cultivadas dos outros e de nós mesmos; é a denúncia da desfiguração idolátrica, desumanizadora. By the way, numa época de social media, isso se tornará cada vez mais comum.As duas obras são previdentes ao sugerir que a grande batalha do século XXI se dará no terreno da antropologia, e que nenhum período histórico se equipara ao nosso no que concerne às investidas de anti-humanidade. Resta saber se será por isso que a posteridade nos conhecerá.

Glaucio Vinicius Alves
Glaucio Vinicius Alves

6 pensamentos sobre “Das tentações de anti-humanidade

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EmmanuelPublicado em  1:02 pm - fev 26, 2018

Mais um ótimo texto, senhor presidente.

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Francisco Damiàn Martìnez ArguelloPublicado em  3:38 pm - fev 28, 2018

Excelente, un saludos desde Ciudad del Este, Paraguay.-

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