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As Cinco Dubia Respondidas pela própria Amoris Laetitia

Foto: Stefano Rellandini/Reuters

 

Por Robert Fastiggi, Ph.D., Professor de Teologia Sistemática no Sacred Heart Major Seminary (“Seminário Maior do Sagrado Coração” em tradução livre).

Tradução: Bruno Menezes.

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Introdução.

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Há cerca de 14 anos, eu tive a honra de estar presente numa aula dada pelo então juiz da Suprema Corte de Justiça Antonin Scalia. A aula foi patrocinada pela Ave Maria School of Law (“Faculdade de Direito Ave Maria”, em tradução livre), que na época ficava em Ann Arbor, Michigan. O juiz Scalia falou sobre como interpretar a Constituição dos Estados Unidos, dando um insight que permaneceu comigo. Para poder interpretar adequadamente a Constituição, ele observou, é importante prestar atenção não só ao que o texto diz, mas também ao que ele não diz. O que o então juiz queria dizer era que não deveríamos ler direitos na Constituição que não estivessem lá.

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Este mês de abril marca o segundo aniversário da aparição pública da exortação pós-sinodal do Papa Francisco, Amoris Laetitia, oficialmente publicada em 19 de março de 2016. Provavelmente nenhuma reação recebeu tanta atenção quanto as cinco dubia (dúvidas ou questões) entregues ao Papa Francisco por quadro Cardeais no dia 19 de setembro de 2016, e publicadas dois meses depois. E não tenho dúvidas de que os quatro prelados — cardeal Walter Brandmüller, cardeal Raymond L. Burke, o então cardeal Carlo Caffarra, e o então cardeal Joachim Meisner — tenham entregue suas dubia com a mais sincera das intenções.  Se, no entanto, nós lermos as dubia seguindo a abordagem do juíz Scalia em relação à constituição americana, não será muito difícil respondê-las.  A chave é prestar atenção não só ao que a exortação diz, mas também ao que não diz. Com essa hermenêutica em mente, eu apresentarei minhas respostas às dubia baseadas na própria Amoris Laetitia [AL].

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As Cinco Dubia:

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  1. É perguntado se, segundo as afirmações da Amoris Laetitia (300-305), agora se tornou possível dar absolvição no sacramento da penitência e assim admitir à santa Comunhão uma pessoa que, enquanto unida por uma união conjugal válida, vive junto com uma pessoa diferente more uxorio* sem cumprir as condições fornecidas pela Familiaris Consortio, 84, e subsequentemente reafirmadas pela Reconciliatio et Paenitentia, 34, e Sacramentum Caritatis, 29. Poderia a expressão “em certos casos” encontrada na Nota 351 (305) da exortação Amoris Laetitia ser aplicada a pessoas divorciadas que estão em uma nova união e que continuam a viver more uxorio?

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Resposta:  Não.  Na AL não há mudanças em relação aos requerimentos de padres e penitentes no que diz respeito ao Sacramento da Penitência.  Em AL, 3 o Papa Francisco indica que a exortação não representa uma intervenção na parte do magisterium para introduzir novos ensinamentos em questões “doutrinais, morais ou pastorais”. Em nenhum lugar da AL o papa Francisco dá permissão aos católicos divorciados e civilmente “recasados” para receber a Santa Comunhão que não estejam observando a continência.

 

  1. Depois da publicação da exortação pós-sinodal Amoris Laetitia (304), será ainda preciso considerar como válido o ensinamento da encíclica Veritatis Splendor, 79 de São João Paulo II, baseada nas sagradas Escrituras e na Tradição da igreja, sobre a existência de normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus e que são vinculativas sem exceções?

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Resposta: Sim. Em AL, 304, o Papa Francisco deixa claro que “regras gerais estabeleceram um bem que jamais pode ser desconsiderado ou negligenciado.” Em AL, 311 ele também reafirma a necessidade de assegurar “a integridade do ensinamento moral da Igreja” e ter um cuidado especial “em enfatizar e encorajar os valores mais altos e mais centrais do Evangelho.”

 

  1. Depois da Amoris Laetitia (301), ainda é possível afirmar que uma pessoa que vive habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como por exemplo aquele que proíbe o adultério (Mateus 19:3-9), se encontra numa situação objetiva de pecado grave habitual (Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, “Declaração,” 24 de junho de 2000)?

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Resposta: Sim: O papa Francico deixa claro em AL, 301 que “as exigências do Evangelho” não estão sendo comprometidas. Em vez disso, ele está meramente apontando que em alguns casos há fatores mitigantes que podem afetar a culpabilidade (que é algo já afirmado no Catecismo da Igreja Católica, 2352).

 

  1. Depois das afirmações da Amoris Laetitia (302) sobre “circunstâncias que mitigam a responsabilidade moral,” ainda é preciso considerar válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II Veritatis Splendor, 81, baseada na sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, de acordo com a qual “circunstâncias ou intenções jamais podem transformar um ato intrinsecamente mau em virtude de seu objeto num ato ‘subjetivamente’ bom ou defensável como escolha”?

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Resposta: Sim. O Papa Francisco nunca diz que as circunstâncias ou intenções transformam um ato intrinsecamente mau numa escolha boa e defensável.  Ele meramente reconhece que pastores de almas precisam fazer um exercício de discernimento ao julgar a culpabilidade das pessoas em diferentes situações.

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  1. Depois da Amoris Laetitia (303), ainda é preciso considerar como válido o ensinamento da encíclica Veritatis Splendor, 56 de São João Paulo II, baseado nas sagradas Escrituras e na Tradição da Igreja, que exclui a interpretação criativa do papel da consciência, e enfatiza que a consciência não pode jamais autorizar ou legitimar exceções a normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus em virtude de seu objeto?

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Resposta: Sim. Em AL 303, o Papa Francisco nunca dá permissão para engajar em atos intrinsecamente maus.  Ele meramente assinala que a consciência pode reconhecer que Deus está chamando alguém para fazer uma oferta ou sacrifício que vai em direção ao bem, mesmo que isso ainda não seja o totalmente esperado. Em AL, 305, ele observa que tais “pequenos passos” na direção correta são muitas vezes “mais agradáveis a Deus do que uma vida que externamente parece estar em ordem, mas que percorre o dia sem confrontar grandes dificuldades.”

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Essas são minhas respostas às cinco dubia.  Eu sei que algumas pessoas dirão que eu estou lendo a Amoris Laetitia de uma maneira extremamente ingênua e simplista, ou que eu não estou sendo crítico o suficiente. Eu discordo. Eu estou respondendo às dubia baseado no que a exortação diz e o que não diz, de acordo com a maneira rigorosa como o juiz Scalia lê a Constituição americana. Eu estou ciente de que pessoas leram coisas na Amoris Laetitia que não estão lá, e eu também estou ciente de que outros afirmam que o Papa Francisco está fazendo mudanças no ensinamento moral católico, de uma forma indireta através de uma ambiguidade calculada. Desde que as dubia, no entanto, apelam para seções específicas da exortação, a única forma adequada de responder é vendo o que essas seções dizem e o que elas não dizem, e olhar outras passagens da exortação que clareiam ainda mais as intenções do Santo Padre. Outros, sem dúvida, apelarão para as Diretrizes dos Bispos da região de Buenos Aires como prova de que o Papa Francisco deseja permitir a Sagrada Comunhão para católicos divorciados e civilmente “recasados” que não estão vivendo em continência. Tal prova, contudo, não é apresentada, pois o nº 6 dessas Diretrizes meramente abre a “possibilidade de acesso aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia” para católicos vivendo em circunstâncias complexas, onde a declaração de nulidade não pôde ser obtida.

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Já que nenhuma mudança foi feita pelo Sacramento da Reconciliação seja pelo Papa Francisco ou pelos bispos de Buenos Ares, devemos assumir que aqueles que confessam seus pecados também manifestam um “propósito de se emendar” como exigido pelo cânon 987 do CDC. Sugerir que nenhum propósito de se emendar é exigido é ler nas Diretrizes de Buenos Aires algo que não está lá.  Alguns podem objetar que as Diretrizes silenciam sobre o propósito de se emendar, e portanto, não podemos supor que seja exigido. Tal argumento baseado no silêncio, no entanto, é extremamente fraco. É tão fraco quanto o argumento de que o Papa Francisco, na nota de rodapé 351 da AL, esteja dando permissão aos católicos divorciados e civilmente “recasados” para receber a Santa Comunhão sem viver em continência. A nota de rodapé 351, contudo, diz apenas que — para aqueles vivendo em situações irregulares — a assistência oferecida pela Igreja pode, em certos casos, “incluir a ajuda dos sacramentos.” Já que não foi feita qualquer mudança na doutrina ou disciplina dos sacramentos pelo Papa Francisco, devemos assumir — tanto por justiça quanto por caridade — que a ajuda dos sacramentos obedece à doutrina e disciplina da Igreja.

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A edição do dia 15 de fevereiro de 2018 de La Civilità Cattolica contém uma transcrição da conversa que o Papa Francisco teve com alguns jesuítas no dia 16 de janeiro de 2018 em Santiago, Chile. Nessa conversa, o Papa Francisco afirma: “Se você der uma olhada no panorama das reações à Amoris Laetitia, você verá que as críticas mais fortes da exortação são contra o oitavo capítulo: ‘Pessoas divorciadas podem ou não receber a comunhão?’ Mas a Amoris Laetitia vai numa direção completamente diferente; ela não entra nessas distinções. Ela levanta a questão do discernimento. Isso já estava no coração da grande moral clássica tomista.  Então a contribuição que eu quero da Sociedade é ajudar a Igreja a crescer em discernimento.”

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Eu acho que devemos acreditar nas palavras do Santo Padre. Em Amoris Laetitia, ele não entra nas distinções em relação a quem pode receber a Santa Comunhão. Em vez disso, ele deseja que uma atenção maior seja dada ao discernimento. Ele deixou absolutamente claro que “o discernimento não pode jamais prescindir das exigências do Evangelho da verdade e da caridade, como propostas pela Igreja” (AL 300). Essas palavras mostram que o Papa Francisco não pretende fazer qualquer mudança na doutrina ou disciplina católicas, mas apenas uma mudança na abordagem pastoral em relação àqueles que falharam em viver de acordo com as exigências do Evangelho. Como observou o Cardeal Müller, a única interpretação apropriada da Amoris Laetitia é a interpretação ortodoxa, ou seja, uma interpretação “na linha das sagradas Escrituras, Tradição apostólica e decisões definitivas do magisterium papal e episcopal, que é contínuo até agora” (Entrevista do National Catholic Register com Edward Pentin, 9 de outubro de 2018).

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Eu sei que muita atenção foi dada às cinco dubia dos quatro cardeais, e algumas pessoas estão chateadas e com raiva porque o Papa Francisco não os respondeu. Eu não posso falar pelo Santo Padre, mas ele talvez não tenha respondido por isso não ser algo necessário. Se fizermos um esforço, podemos encontrar as respostas na própria Amoris Laetitia — no que ela diz e no que ela não diz.

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*Concubinato em que os concubinos convivem como se casados fossem. (N. Do T.)

Simpósio O Ocidente dessacralizado

A civilização ocidental foi construída pela Igreja Católica. Com a desintegração do Império Romano do Ocidente, a Igreja assumiu o papel de instituição central e de elemento de união entre os diferentes povos da Europa. De fato, apesar de no período medieval haver monarcas que reinavam sobre grandes porções de terra, seu poder era diminuto, e sua influência sobre questões locais, imperceptível. O senhor feudal era aquele que exercia poder diretamente sobre os servos, mas os feudos eram unidades políticas muito pequenas. Nesse contexto, o sentimento de unidade dos europeus não se encontrava no nacionalismo, que é um fenômeno moderno, mas na Cristandade.

Esse tecido social cristão se consolidou firmemente, durante os dez séculos de medievo, e foi a base sobre a qual surgiu a chamada “civilização ocidental”, tanto na Europa, quanto posteriormente na América. Costuma-se apontar que três são os elementos fundamentais dessa civilização: o direito romano, a filosofia grega e a moral cristã. Isso é verdade, mas ressalte-se que os três elementos estão permeados pelo Cristianismo, e não somente a moral. O direito também foi influenciado pela Igreja, através do modelo de processo penal e de tribunal da Santa Inquisição e dos compêndios de leis da Igreja, como o Decreto de Graciano do século XII. Com relação à filosofia, o contributo cristão também é essencial. Os autores da Patrística e da Escolástica organizaram, traduziram e comentaram uma infinidade de textos filosóficos gregos, além de sua própria produção filosófica, grandiosa.

Isso é um verdadeiro tesouro, uma riqueza de valor inestimável intelectual, cultural e sobretudo espiritualmente. A Cristandade construiu um portentoso edifício intelectivo, no qual todas as ciências, todos os saberes estão ordenados de modo a se chegar à sabedoria e à salvação; em que cada tipo de conhecimento tem uma função muito clara, de modo que o conjunto seja coerente não só em si, mas com a própria realidade e com a alma humana. Tal monumento que nos foi deixado de herança traz consequências sociais importantíssimas: um tecido social e cultural harmônico, composto por pessoas que têm uma clara consciência de quem são e do seu papel no mundo.

No entanto, vemos nos tempos hodiernos o Ocidente esquecer-se dessa origem. Pior ainda: expulsar Nosso Senhor Jesus Cristo dos espaços públicos, da cultura, da educação. Vemos o laicismo espalhar-se, e fundamentações políticas de ordem religiosa serem vistas como atrasadas. A arte perdeu o sentido do belo que leva ao bem, justamente porque se afastou do Sumo Bem, e com isso assistimos à clara degradação da arte moderna, cada vez mais feia, relativista e vazia de significado. A educação, perdendo a diretriz da sabedoria e da salvação das almas, tornou-se utilitarista. A ciência do mundo físico, que é apenas um método de pesquisa sobre as realidades alcançáveis pelos meros sentidos, tornou-se único critério de verdade, e com isso vemos o materialismo se tornando crença do senso comum. As pessoas estão perdendo a capacidade de perceber as realidades imateriais, transcendentes, e mesmo o estudo da Metafísica, cerne da Filosofia, é renegado como ilusório. A própria Filosofia, então, perde a razão de ser, e se torna meio de justificação de ideologias escusas.

O que assistimos é ao esquecimento do mencionado edifício do Cristianismo. Perdeu-se de vista o fim último do conhecimento e da vida, e com isso as diversas áreas separam-se e começam a criar objetivos últimos próprios. Sem a ordem da sabedoria, o construto do saber torna-se esquizofrênico. Daí, advém a série de consequências já apontadas, cada vez mais nefastas para a humanidade. É a esse processo de renegação de Deus e consequente decadência vertiginosa do saber e da humanidade a que chamamos de “dessacralização”, neste evento.

Apesar de deixada de lado, a obra primorosa da Cristandade – do Espírito Santo através dela –  não foi destruída. Ela permanece incólume nos escritos dos santos, e a sede pela contemplação permanece inscrita no coração dos homens. Cabe a nós, católicos, buscá-la, e com base nela ordenar nossos estudos. Cabe a nós, também, dar-lhe a conhecer, para maior glória de Deus e para a salvação das almas. Com isso em mente, o Instituto Leão XIII promove o simpósio “O Ocidente dessacralizado”. É preciso entender a perda de fé e a decadência moral e intelectual do Ocidente, e é preciso anunciar o tesouro cristão do estudo ordenado à sabedoria, do cultivo das virtudes e de uma vida de oração profunda, que levam à vida contemplativa, à perfeita união da alma com Deus. É verdade que esta vida pode ser alcançada pelos homens vivendo neste mundo apenas imperfeitamente, mas, como escreveu São Tomás de Aquino, “este pouco é maior do que todas as coisas que há no homem” (São Tomás de Aquino, In libros Ethicorum Expositio, L. X, l. 11, 2110).

Os ingressos do simpósio já podem ser comprados aqui.

Uma breve lição de filosofia política

Uma das lições mais fundamentais de política é que, como dimensão prática da vida humana, ela não pode ser compreendida somente no nível dos discursos de auto-legitimação. N’A Ideologia Alemã, Marx anota que, após a ascensão socialista da ditadura do proletariado, o Estado fenecerá e as leis não serão mais necessárias, já que a propriedade privada terá sido extinta. Sem divisão do trabalho, todos viveremos “caçando pela manhã, pescando à tarde” e nos entreteremos com “críticas literárias depois do jantar”. A liberdade e a igualdade, supõe-se, serão levadas ao paroxismo. É tentador.


Questione, no entanto, um marxiano ou filomarxista sobre como conjugaremos máxima liberdade e máxima igualdade: as respostas serão as mais evasivas possíveis, e, como desprender-se das ilusões envolve um choque de personalidade, o indivíduo com frequência agarra-se mais vigorosamente ao reino terrestre ao qual se sentira convocado a servir, desprezando no caminho os mais patentes crimes e defendendo os mais terrificantes regimes e posições, como fizeram Sartre, Foucault e outros.


O problema de fundo foi deslindado pelo filósofo húngaro Aurel Kolnai. Kolnai descreve a mentalidade utópica dos revolucionários como uma ‘forma espiritual’ que transcende aqueles simples equívocos de raciocínio comuns a todos nós. O utópico é movido por uma necessidade de aceitar absurdos não apesar de o serem, mas precisamente PORQUE o são.


Os cristãos entendem que o reino ao qual servem “não é deste mundo”, e ninguém pode provar que suas esperanças são infundadas – elas podem ser tidas, quando muito, por improváveis; o reino terrestre apregoado pelos comunistas, que sobreviria mediante transfiguração política, é, por sua vez, impossível.


Não espanta, portanto, que Nicolás Gómez Dávila tenha dito: “A la inversa del arcángel bíblico, los arcángeles marxistas impiden que el hombre se evada de sus paraísos”.

Dos 27 atiradores que cometeram massacres, 26 têm algo em comum

Autor: Mark Meckler, 20 de janeiro de 2018.

Tradutor: Bruno Menezes, 26 de março de 2018.

O recente artigo de opinião de Suzanne Venker na FoxNews é muito, muito importante, porque ela mostra que quase todos os atiradores em massa recentes têm uma coisa em comum: ausência paterna.
Ela começa apontando um tweet depois do tiroteio terrível que aconteceu na Flórida semana passada. O ator e comediante Michael Ian Black começou uma série de tweets desta forma, “Mais profundo que o problema das armas é esse: os garotos estão doentes.”
Venker então descreve como essa “tempestade de tweets” se desviou da verdade:

Infelizmente, é claro que Black se desviou rapidamente. “Homens não têm a linguagem para entender a masculinidade como algo diferente de uma versão do homem das cavernas porque tal linguagem não existe… A linguagem da masculinidade está desesperadamente entrelaçada com a sexualidade, e a linguagem da sexualidade desesperadamente entrelaçada com poder, agência e auto-estima… Sair dessas normas é correr um risco que a maioria de nós tem medo de assumir. Como resultado, muitos homens gastam suas vidas aterrorizados… Nós morremos de medo de sermos vistos como algo diferente de homens. Nós nos conhecemos como homens, mas não sabemos como sermos nossa personalidade inteira. Muitos de nós (eu incluso) ou ficamos quietos ou experimentamos uma profunda raiva e vergonha. Ou todos os três: homens que estão aterrorizados.”

O sr. Black não é o primeiro a atacar a masculinidade e sugerir que isso é a raiz de todos os males. De fato, a frase “masculinidade tóxica” se tornou um chavão na América.
E também não é algo difícil de vender. Afinal de contas, são garotos e homens que são tipicamente culpados por atos violentos de agressão. Ergo, a testosterona – o hormônio definidor da masculinidade – deve ser culpada. Mas a testosterona está aí desde sempre. Massacres em escolas não.
O sr. Black está correto quando diz que os garotos estão doentes. Mas eles não estão doentes como resultado de serem homens das cavernes que não “evoluíram” da maneira que as mulheres fizeram. Eles estão doentes por outro motivo.
Eles não têm um pai.

Sim, sim, mil vezes sim.
A ausência paterna é um problema sério. Os garotos dos Estados Unidos estiveram sob estresse por décadas. Não é a masculinidade tóxica que os está machucando, mas o fato de que quando chegam em casa o pai deles não está lá. Claro e simples. Adicione a isso um monte de modas culturais horríveis dizendo-os que tudo o que é ruim é bom (cultura de gangues, drogas, misoginia etc.), e nós temos um problema sério em nossas mãos.
Venker explica que da lista da CNN dos 27 tiroteios mais mortais na história dos Estados Unidos, apenas um dos autores foi criado por seu pai biológico desde a infância.
“De fato, existe uma correlação direta entre garotos que cresceram com uma ausência paterna e garotos que saíram da escola, que bebem, que usam drogas, que se tornam delinquentes e que terminam na prisão”, ela escreve, “E que matam os seus colegas.
Esse problema não pode ser resolvido por nenhuma política, ou qualquer tipo de controle de armas. Está na hora de ter uma discussão séria sobre a degradação de nossas normais culturais.

Artigo original:
http://www.patheos.com/blogs/markmeckler/2018/02/27-deadliest-mass-shooters-26-one-thing-common/#74Rtr9LFRXGObCI6.99

Leia mais em:

http://www.foxnews.com/opinion/2018/02/18/desperate-cry-americas-boys.html

Das tentações de anti-humanidade

Em página memorável de Recordação da Casa dos Mortos, ocorre ao narrador a seguinte situação: o prisioneiro é forçado a encher com terra um recipiente, levá-lo até o outro lado do pátio, descarregá-lo, tornar a lotá-lo com a mesma terra e voltar pelo mesmo caminho, repetindo o gesto. E assim por horas a fio.
 
No terceiro ato de Calígula (a propósito, não recomendo o filme de 1979, com o Malcolm McDowell), de Camus, o imperador e um jovem dialogam. As “extravagâncias” (o assassínio do pai do jovem está entre elas) de Calígula se acham em pauta. O imperador alega em seu próprio favor que aqueles caprichos custavam mil vezes menos que a menor das guerras. O jovem Scipion replica, implacável: “Mais, du moins, ce serait raisonnable et l’essentiel est de comprendre” (“Pelo menos [a guerra] seria razoável, porque o fundamental é compreender [o motivo dela]”). A queixa de Scipion soa injusta, já que Calígula se gaba e reitera muitas vezes ao longo da peça um aferrado apego à lógica. A lógica, Calígula, há que perseverar na lógica, diz enfurecido diante do espelho.
 
Em teoria, Dante nos descobriu que o demônio é também lógico; na prática, nada se compara ao século XX: pôde-se chacinar de fome milhões de ucranianos, perseguir e dizimar outros milhares nas câmaras de gás; os campos de concentração e trabalho forçado talvez nem tivessem existido caso servissem somente ao morticínio. Na realidade, seu propósito não era simplesmente matar, mas desumanizar as vítimas, privá-las da dignidade, reduzi-las a meros espectros cambaleantes. Tudo segundo critérios industriais bem definidos.
 

Segundo parece, a Shoah foi perfeitamente criteriosa e coerente, uma vez baseada nas premissas torpes formuladas pelas cabeças doentes dos próceres do regime nazi: os judeus eram encarados como simples números, de sorte que a possibilidade de assassiná-los não implicaria remorso maior do que o que se tem ao se extirpar um verme.Decerto, tratou-se de uma ideologia da razão. A lição, todavia, não foi ainda assimilada, como mostram (todos estão cansados de saber!) o prestígio acrítico de que é cumulada a classe científica e o mesmo raciocínio desumanizador hoje consagrado em lei – que é a Planned Parenthood senão um Aktion T4 engomadinho, de verniz civilizado? No Velho Continente, de novo já se deu lugar à eutanásia (inclusive infantil) oficial. E o que tem isso a ver com Dostoiévski e Camus?

Sim, ambos brilhantemente intuíram e denunciaram as implicações naturais do espírito niilista. O primeiro delatou o enlouquecimento dos prisioneiros – incluindo os mais empedernidos niilistas – quando submetidos a tarefas sem sentido (ele notou que mesmo os mais simplórios trabalhos eram suportados pelos encarcerados, caso tivessem alguma razão de ser), metáfora da vida assaltada pela negação da transcendência. Calígula é por sua vez engolido num ciclo autofágico, ensandecido pelo poder, obcecado pelo impossível.

“Quero a lua”, diz, antecipando desse modo as aspirações dos tiranos das últimas décadas, ditadores cujo legado tristemente (e, hoje, pomposamente) persiste.

O essencial, contudo, é que os escritores lançaram luz sobre o velho problema da tensão entre amor e paixão ou sobre a facilidade com que substituímos as experiências concretas dos encontros pelas imagens ideologicamente cultivadas dos outros e de nós mesmos; é a denúncia da desfiguração idolátrica, desumanizadora. By the way, numa época de social media, isso se tornará cada vez mais comum.As duas obras são previdentes ao sugerir que a grande batalha do século XXI se dará no terreno da antropologia, e que nenhum período histórico se equipara ao nosso no que concerne às investidas de anti-humanidade. Resta saber se será por isso que a posteridade nos conhecerá.